(Re)encontro

A ligação

- Alô?
- Oi, sou eu.
- ...
- Desculpa por estar ligando assim, do nada, depois de tanto tempo.
- Eu nunca ia imaginar que me ligaria outra vez.
- É, eu sei, mas acho que existem coisas que preciso dizer.
- Hum.
- Sabe aquela praça em frente à sua casa?
- Sim, a mesma que vejo da minha janela? Hehe.
- Sim, essa, estou nela, pode vir aqui?
- Não sei, eu deveria?
- Acho que você não tem nada a perder.
- Certo. Desço em 5 minutos.
- Ok, estou a lhe esperar.


Encontro


- Oi!
- Oi! Desculpe-me mais uma vez por estar lhe ocupando, mas, era necessário.
- Tudo bem. O que tem a me dizer?
- Acho que depois de tanto tempo, é difícil te olhar assim, tão perto e ao mesmo tempo longe.
- Era isso?
- Hehe. Não, claro que não.
- Você disse que não voltaria mais.
- Eu sei. Há muitas bobagens que lhe disse naquele dia. Muitas que não me orgulho.
- ...
- O tempo passou e me fez perceber que você não merecia aquela pessoa. Tenho esse pensamento hoje e tive naquele dia. Eu não fui 100% e você merecia 120. Eu acreditava que a gente precisa ficar longe pra poder amadurecer, e foi um erro meu. Se eu te amava tanto por qual razão não poderia amadurecer com você?
- Você veio se desculpar? Não preci...
- Não, eu não vim me desculpar. Como você bem me conhece, sabe que não sou tão simples assim pra pedir desculpas.
- É, o erro nº 3.
- Sim, o 3. Junto com o 1º: complicado demais.
- É.
- De início, eu não tinha intenção de vir aqui, falar com você. O meu orgulho imenso me fez pensar 12 ou 13 vezes antes de vir. A 14ª aconteceu quando sentei aqui, nesse banco.
- O que te fez vir?
- A culpa. O peso no coração!
- Eu pensei que não era um pedido de desculpas.
- Bem, é e não é. Hehe. Orgulho outra vez pra assumir.
- Sempre ele.
- O maldito. Enfim...
- Acho que precisa ser mais direto.
- Também acho, só estou procurando palavras certas pra ser mais claro. Isso tá me consumindo!
- A culpa?
- A sua ausência!
- ...
- ...
- Mas, a escolha de partir foi sua, lembra? Que apesar das nossas desavenças, estávamos sempre juntos, até certo dia.
- Eu sei, eu sei. E, como lhe disse, tive pensamentos e conclusões das quais não me orgulho. A minha imaturidade fez com que eu achasse melhor me afastar de você ao invés de lutar com você. Eu pensei que estava certo, que era preciso você se envolver com mais pessoas, que eu precisava me envolver com mais pessoas, e o resultado disso seria um bom futuro pra nós dois.
- Meu plano era um futuro com você, com ou sem maturidade. 
- Eu não enxergava isso, até partir.
- Tolo.
- Como sempre.
- Eu sofri muito com sua ida.
- Eu sofri 3 vezes mais por ir. Cada dia que vinha era um tormento. Cada noite que caía era um combo de tristeza mais solidão mais dor.
- Por que não voltou? Você sabe que eu te aceitaria sem hesitar.
- O 2º erro junto com o 3º e o 1º, e todos os outros que sou incapaz de perceber.
- Há dezenas!
- Sim, mas só um que me faz mais falta?
- Qual?
- Você!
- Eu sou um erro?
- O mais lindo de todos.
- ...
- O jeito desastrado de fazer as coisas, derrubando o que há em sua volta. A confusão nas palavras e a forma que falava. O soluço desmantelado quando chorava.
- Mas, esses são erros meus!
- Eu prometi que cuidaria de você, que te confortaria, que estaria contigo. Se você fazia bagunça, eu me sentia culpado por não ser culpado junto. 
- Não acho que deveria se sentir assim.
- É, imaginei que diria isso, mas sinto.
- Apenas fala, fala o que veio dizer.


Desabando!


- Você fez e faz falta. Você é a peça que falta em minhas engrenagens! 
- Está pedindo pra voltar? Pois, você se foi. Me deixou só, me disse coisas estranhas que nunca entendi. Disse que era melhor daquele jeito mesmo me amando. Falou que estava confuso com tudo e que não sabia mais o que sentia por nós dois. É, não consigo te entender! Você desaparece, não me atende, me maltrata e depois vem assim, tão fácil, dizer essas coisas? O que houve com você? Por que fez isso com nós dois?
- Eu sinto muito. A minha vinda não era pra isso. Eu não tinha a intenção de resgatar essa dor que você sentia por tudo.
- Deveria ter pensado!
- Mas, eu não penso. Não pensei naquela época. Não pensei nas consequências, nas coisas ruins que aconteceriam. Eu estava disposto a te deixar livre pra ser feliz com alguém melhor do que eu.
- Você era o melhor pra mim.
- Mas, eu não via isso. Apenas achava que era você a melhor coisa pra minha vida. Meu grande erro foi não querer mudar. Se eu estava tão convicto de que não era certo, eu deveria mudar e ser. 
- É, deveria, mas não foi. Aliás, apenas se foi. Acho que eu não deveria ter descido.
- Acho que você queria descer, pois, no fundo, alguma parte minha ainda habita aí dentro.
- Talvez.
- Talvez você não seja só uma parte em mim, mas sim, um todo.
- Acho que é tarde pra dizer essas coisas.
- Durante esse tempo aprendi que nunca é tarde pra sentir saudade, pra dizer que alguém faz falta, pra tentar recuperar alguém que fizemos sofrer, pra dizer que ama alguém. Pra dar o coração pra quem realmente merece ter.
- Veio me dar seu coração outra vez?
- Como posso lhe dar meu coração outra vez, se ele nunca partiu comigo?


Fim?


"Aos que se foram e nunca tiveram a chance de dizer ou saber se era o fim."

Eu, João.