A última prece



Pai, por uma última vez, venho aqui desabafar. Desta vez não irei pedir nada, já que não tenho tempo suficiente para tal. Só vim me despedir. Não sei como as palavras estão saindo... Esse abismo é profundo demais e meu corpo ainda está caindo na escuridão. Bem sabes de todos os meus lamentos, de todas as minhas quedas, minhas conquistas, mas, agora... Nada importa. Eu não quero que importe, só quero cair e sentir meu corpo bater onde não há luz. Vejo meu corpo se afastar cada vez mais do mundo, aumentando a cada segundo a velocidade dessa queda. Como é bom me desfazer disso tudo! Como é bom me sentir acabar! Pai, obrigado por fazer eu me sentir assim! Meu corpo cansado e meu coração quebrado já não aguentam mais as dores que vivi. Perdemos a esperança dos sentimentos, só há frio e gelo. Só há desilusão e dor. Dor, e dói, ou doía. Nem sei o que há mais. Eu sei que continuarei caindo e sei que continuará olhando por eles, sei que irá. Era o que eu mais pedia até um tempo atrás. Não necessito mais rogar por isso. Fecho os olhos agora pra me entregar de vez ao profundo processo de liberdade infinita. Esse mundo físico já não me pertencia, agora para sempre não terá como me pertencer. Estou entregue.

Eu, João.