Heroína


"Que se foda tudo. Que vá para o inferno o que você tem dentro de si!"
Foi seu último grito. Foi sua última tentativa de me fazer enxergar.
Em minha volta, álcool, cigarros, cocaína. Todas pesadas pra que nessa solidão alguma coisa seja minha heroína.
Impossível não perceber. Inevitável não me surpreender. Mas ninguém nessa sala cheia de desejos carnais me tira os pensamentos que tenho sobre àquela noite.
É a hora da volta.
Elas dançam, rebolam, tentam. Eles fumam, comem, tentam. Todos gozam. Uns com mais intensidade; outros com mais qualidade. Mas no fim, todos gozam. É a hora que chegou pra se perder (ou ganhar). Um leve passeio dos olhos pela pista. E por mais que os 150 BPMs animem, aos poucos meu coração desacelera.
É hora de mais uma volta.
Meu pulso tende a pulsar mais forte, numa tentativa de expulsar de mim os demônios de nossa relação. Só que agora é tarde. Eles já venceram. A batida da porta soou como um gongo declarando o vencedor. E, nessa luta, estou nocauteado.
É hora de mais uma volta.
E dia após dia eu terei esse momento; me afundando nas drogas. Até que a droga do momento me venha e me tire do tempo, dizendo que você não vai voltar nunca mais.

Eu, João.